Não basta ser veloz, bonito e esportivo. Para satisfazer completamente os fanáticos por emoção sobre quatro rodas, o rosto do motorista precisa estampar um sorriso de ponta a ponta, daqueles bem contagiantes, ao pisar fundo no acelerador. Com esses três cupês “educados” em diferentes escolas de pilotagem, essa condição é garantida. Na verdade, é impossível não esboçar alegria ao dirigir qualquer um deles.
O vermelho, Toyota GT 86, desenvolveu técnicas milenares no Japão e está disposto a conquistar espaço pelo mundo, incluindo o Brasil, onde deve começar a ser vendido até o fim de julho. O branco, Chevrolet Camaro, foi doutrinado nos EUA, com direito a muito hambúrguer e vitaminas para ficar musculoso, além de orientações sábias de seu primo australiano Omega, do qual compartilha a plataforma. O outro vermelhinho, Peugeot RCZ, recebeu ensinamentos na França, amparado de muita finesse e bons vinhos.
Com essa trinca disponível no país, é preciso definir o idioma e a personalidade que serão capazes de fazê-lo literalmente gargalhar ao acelerar forte pelas ruas ou abusar um pouco além da conta em curvas, sejam de baixa ou alta velocidade. Para ter resposta da felicidade, convocamos o trio para a batalha motorizada dos continentes, entre modelos que precisam estar na mira dos consumidores interessados em gastar até R$ 200 mil por uma boa diversão com cheiro de gasolina.
Ficamos uma semana imersos em cada uma das culturas – asiática, europeia e norte-americana. No fim da aventura, bateu tristeza por ter que devolver os carros às respectivas fabricantes, mas obtivemos a certeza da maior satisfação: o prazer simples e puro desde o momento de se acomodar ao volante, de dar a partida e percorrer quilômetros na manha ou com vigor é mais bem vivenciado no cupê esportivo de olhinhos puxados.
Coincidentemente, o GT 86 é também o protagonista dessa turma, pois ainda não estreou nas lojas brasileiras. A Toyota o trouxe ao país no fim do ano passado para ver qual é a dele e sua chegada às revendas está garantida, com preço estimado na casa dos R$ 150 mil. O fator novidade, contudo, foi o que menos importou na escolha do nipônico como o rei do sorriso. Foi a proposta do cupê, seu design limpo e a “doutrina mecânica” que o colocaram no topo do pódio de nosso risômetro. Só de bater o olho nele, a vontade de conhecê-lo em detalhes é aguçada. Ao abrir o capô e se deparar com as palavras Toyota, Boxer e Subaru na cobertura do motor, o desejo de explorá-lo vai ao ápice.
O propulsor boxer, com curso e diâmetro dos cilindros de exatos 86 mm e comando duplo de válvulas variável em abertura e fechamento, é o mesmo 2.0 16V a gasolina aperfeiçoado da Subaru que, no GT 86 (não à toa apelidado de Toyobaru), ganha injeção eletrônica e direta combinadas.
Para um cupê de 1.298 kg, os 200 cv e o torque máximo de 20,8 kgfm com 7.000 rpm são mais do que empolgantes. Para aumentar ainda mais a euforia, o ronco do boxer preenche a cabine a cada pisada forte no acelerador, instigando o condutor a fazer o conta-giros atingir a faixa de corte às 9 mil rotações e observar uma luz piscar no quadro de instrumentos, sugerindo a troca de marcha.
Ah, só faltou informar o mais legal de tudo no GT 86: a transmissão manual de seis marchas, engates curtíssimos e muito bem escalonados, combinada a uma embreagem de peso médio. Infelizmente, o Camaro e o RCZ só são oferecidos com câmbio automático. Portanto, o sorriso neles nesse ponto é um pouco menor.
A tração traseira (do jeito que Deus manda) e a distribuição de peso quase perfeita, 53% na frente e 47% atrás, só contribuem para apimentar o relacionamento com o japonês. Com diferencial de deslizamento limitado, o Toyota gruda no chão e se mostra muito permissivo nas pilotagens arrojadas. Mas se quiser fazer um certo contraesterço na direção de assistência elétrica e sentir a traseira escorregar, basta desligar os controles eletrônicos de tração e estabilidade. Olha o sorriso no rosto!
Não pense, porém, que os cupês do ocidente são sem graça. Ao contrário, eles têm muitas virtudes. O Camaro, por exemplo, o mais caro da turma com sua tabela de R$ 213.490, desperta alegria de quem deseja brutalidade plena e barulho ensurdecedor. Tudo graças ao bloco 6.2 V8 a gasolina de 406 cv e saudáveis 56,7 kgfm a partir de 4.400 rpm. Combinado à transmissão automática de seis marchas, com aletas atrás do volante para trocas sequenciais, esse motor faz o gringo acelerar de 0 a 100 km/h em 6,1 segundos, 1,9 s mais rápido que o GT 86 e 2,5 s melhor que o europeu RCZ, com seu 1.6 turbo de 165 cv e 24,5 kgfm e a caixa robotizada de seis velocidades.
Se é o estilo refinado que faz você sorrir, pode admirar então o Peugeot com vontade, pois isso sobra no design do francês tabelado a R$ 137.990. As linhas onduladas da carroceria tomam conta até do teto de vidro e contam ainda com o charme do defletor traseiro, que se eleva ao acionar um botão no console e automaticamente em velocidade superior a 85 km/h. Além de estilo, confere maior estabilidade ao modelo de tração dianteira (que pena!).
O refinamento da cabine do Peugeot é superior em relação ao dos cupês rivais, mas poderia ser ainda mais à frente da concorrência se a fabricante pensasse em algo exclusivo, pois é idêntico ao de outros modelos da marca, como o hatch 308 e o sedã 408. Para compensar a ausência do câmbio manual, o RCZ merecia ao menos borboletas para mudanças sequenciais e melhorias na caixa automática, que em giros elevados demonstra imprecisão e demora para reduzir ou aumentar de marcha.
No interior do Camaro, os destaques são a central multimídia sensível ao toque e o head-up display, que projeta informações como a velocidade do carro no para-brisas. O Peugeot também tem uma tela com GPS, mas de operação bem enjoada. Para o GT 86, a Toyota promete uma interface à altura da concorrência. Ainda bem, pois o sistema de som na unidade avaliada era muito simples. Poderiam aproveitar e melhorar a aparência do volante, que encantaria lá nos idos dos anos 1990. No mais, o painel do japonês é bastante atrativo, com direito, inclusive, a botão de partida.
Por onde quer que passem, os três cupês chamam muita atenção. No Camaro, o motorista só precisa tomar cuidado para se distrair demais com o assédio e não ocupar duas faixas da pista, graças às medidas exageradas da carroceria. Outro incômodo é o campo de visão limitado da dianteira e traseira, algo típico dos muscle cars. No Peugeot e no GT 86, a área envidraçada é ampla e os números de seus “manequins” são justinhos.
No balanço dos sorrisos, o francês fica em terceiro lugar, despertando uma euforia com a sensação de que faltou algo. O norte-americano vem na sequência, fazendo o motorista muito feliz com seu arrojo e brutalidade, mas que se tornam cansativos no longo prazo. O equilíbrio mesmo é do Japão. No GT 86, a barriga dói de tanto rir.

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